O que esperar da LAT.BUS 2026: podcast traz desafios que já estão mudando o transporte

A LAT.BUS 2026 acontece entre os dias 11 e 13 de agosto, na São Paulo Expo, reunindo operadores, órgãos gestores, fabricantes, fornecedores de tecnologia, entidades e profissionais ligados ao transporte de passageiros. Considerada a maior feira de mobilidade por ônibus das Américas, a edição combina exposição de produtos e serviços com uma programação de palestras dedicada a financiamento, regulação, tecnologia, sustentabilidade, experiência do passageiro e novos modelos operacionais.


Antes da abertura do evento, a segunda edição do CittaCast, podcast da Cittati, propôs uma leitura dos assuntos que já influenciam as decisões do setor. O episódio contou com Alexandre Pelegi, jornalista especializado em mobilidade urbana, diretor do Diário do Transporte e consultor da ANTP, e Luiza Gomes, Gerente de Relacionamento da Cittati.


Ao longo da conversa, Pelegi trouxe uma visão abrangente sobre o mercado, as políticas públicas e as mudanças no comportamento dos passageiros. Luiza aproximou esses temas da realidade das empresas, relacionando as discussões às demandas observadas entre clientes da Cittati. Essa divisão de perspectivas orientou o episódio e permitiu conectar tendências setoriais a problemas que já aparecem no planejamento e na operação.

Entre os principais eixos estiveram a redução de passageiros na última década, a Tarifa Zero, o Marco Legal do Transporte Público, os possíveis impactos do fim da escala 6x1 e a aplicação de tecnologia, dados e automação na mobilidade urbana.


Principais pontos do episódio


  • A redução de passageiros não possui uma única causa e precisa ser analisada junto às mudanças nos hábitos de deslocamento, à motorização individual e à expansão de outras alternativas de mobilidade.
  • A Tarifa Zero pode ampliar o acesso, mas exige fontes estáveis de financiamento, mecanismos de controle e clareza sobre a remuneração da operação.
  • O Marco Legal do Transporte Público cria novas referências para contratos, qualidade, dados, transparência e sustentabilidade econômico-financeira.
  • A possível mudança da escala 6x1 pode afetar o dimensionamento das equipes, a construção das escalas, os custos e a continuidade do serviço, mas não deve ser analisada isoladamente.
  • A tecnologia produz resultados consistentes quando os dados são confiáveis, integrados e utilizados para orientar decisões.
  • A LAT.BUS 2026 deve mostrar como financiamento, regulação, pessoas, veículos, sistemas e sustentabilidade estão cada vez mais conectados.


Por que o transporte coletivo continua perdendo passageiros?


A redução de passageiros foi um dos primeiros assuntos discutidos no CittaCast. Para Alexandre Pelegi, a perda de demanda não pode ser atribuída a uma única causa ou analisada apenas como consequência da pandemia. Dados da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos) apontam que entre 2013 e 2023 o Brasil teve uma redução de 44,1% nas viagens de ônibus do transporte público urbano.


“É uma conjunção de fatores”, resumiu Alexandre ao relacionar a queda de passageiros ao crescimento da motorização individual, à expansão de outras alternativas de deslocamento e às mudanças nas escolhas de mobilidade da população.


O estímulo à aquisição do carro próprio, a ampliação do transporte por aplicativo, e a busca por opções consideradas mais flexíveis alteraram o comportamento de parte dos passageiros. Ao mesmo tempo, muitos sistemas de transporte coletivo enfrentam dificuldades para acompanhar essas novas expectativas.


Intervalos longos, baixa previsibilidade, tempos elevados de viagem, falta de informação e redes pouco adaptadas às mudanças urbanas reduzem a atratividade do serviço.


Luiza Gomes complementou essa leitura a partir da relação com os clientes da Cittati. A Gerente de Relacionamento mostrou que a redução de passageiros não aparece apenas nos indicadores gerais do mercado. O problema chega à rotina das empresas, que precisam rever linhas, horários, oferta e estratégias para manter o serviço atrativo.


A análise apresentada no episódio também indica que recuperar passageiros não depende somente de campanhas ou incentivos pontuais. É necessário melhorar a experiência oferecida, aumentando a regularidade, a previsibilidade e a qualidade das informações disponíveis.


A queda da demanda produz consequências que se retroalimentam. Com menos passageiros, o modelo financiado predominantemente pela tarifa fica mais pressionado. O custo da operação precisa ser distribuído por uma base menor de usuários, aumentando a necessidade de reajustes ou subsídios.


Quando a resposta é somente reduzir a oferta, o serviço pode se tornar ainda menos competitivo. Intervalos maiores, linhas com menor frequência e mais dificuldade para realizar conexões estimulam a migração para outros modos.


Recuperar passageiros exige uma combinação de medidas: melhorar a confiabilidade, reduzir o tempo de viagem, oferecer informação de qualidade, rever redes e compreender como os deslocamentos estão mudando.


A programação da LAT.BUS 2026 reconhece a dimensão desse desafio. Um dos painéis previstos abordará os dez anos de queda de demanda e a necessidade de uma política nacional de financiamento que ajude a romper o ciclo de perda de passageiros.


Tarifa Zero: ampliar o acesso exige financiar o serviço


A Tarifa Zero ocupa um espaço crescente no debate sobre mobilidade urbana. A retirada da cobrança direta ao passageiro pode ampliar o acesso, estimular o uso do transporte coletivo e reduzir o peso dos deslocamentos no orçamento das famílias.


Entretanto, Alexandre Pelegi destacou no CittaCast que a Tarifa Zero, por si só, não é o que vai salvar os rumos do transporte. A gratuidade pode contribuir para atrair usuários, mas não resolve isoladamente problemas relacionados à qualidade, à oferta, à eficiência e à sustentabilidade financeira.


Veículos, profissionais, manutenção, combustível ou energia, infraestrutura, sistemas, fiscalização e gestão continuam demandando recursos. Quando o passageiro deixa de pagar a tarifa, é necessário definir quem financiará o serviço e como os recursos chegarão à operação.


A Tarifa Zero, portanto, não pode ser analisada somente como uma decisão tarifária. Ela precisa fazer parte de uma política mais ampla, capaz de combinar acesso, qualidade, planejamento e fontes permanentes de custeio.


Mais de 170 cidades brasileiras já adotaram modelos de Tarifa Zero. A NTU, no entanto, alerta que a expansão da gratuidade torna mais evidentes os desafios de financiamento, monitoramento e aplicação do modelo em municípios de maior porte.


O debate também precisa considerar o porte e a complexidade de cada rede. Sistemas menores podem operar com estruturas mais simples, enquanto grandes cidades e regiões metropolitanas precisam financiar volumes elevados de viagens, integração entre municípios, infraestrutura e níveis de serviço mais complexos.


Luiza Gomes relacionou essa discussão à necessidade de controle e comprovação. Quanto maior a participação de subsídios e recursos públicos, maior é a importância de acompanhar o que foi planejado, o que foi efetivamente executado e quais resultados foram entregues.


Nesse cenário, planejamento, monitoramento, controle de demanda e indicadores deixam de ser apenas ferramentas internas das empresas. Eles passam a sustentar a transparência e a governança do modelo de financiamento.


O que muda com o Marco Legal do Transporte Público?


O Marco Legal do Transporte Público foi um dos principais temas do episódio porque reúne questões que afetam contratos, financiamento, transparência, planejamento e uso de dados.


Alexandre Pelegi analisou o Marco Legal como parte de um novo cenário para o transporte coletivo, no qual a tarifa paga pelo passageiro não pode continuar sendo tratada como a única fonte de sustentação do sistema.


Ao relacionar a evolução regulatória ao papel dos sistemas e das informações, Alexandre observou que “a tecnologia ganhou proeminência” na agenda do setor.


A Lei nº 15.432, sancionada em 13 de junho de 2026, instituiu o Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano. A legislação reconhece o transporte coletivo como serviço público essencial e estabelece princípios como universalização do acesso, qualidade, regularidade, sustentabilidade, transparência e segurança jurídica dos contratos. A lei entra em vigor um ano após sua publicação.


Um dos pontos mais relevantes é a distinção entre o custo necessário para remunerar a prestação do serviço e a tarifa cobrada do passageiro.

Na prática, essa separação reconhece que o valor pago pelo usuário não precisa ser a única fonte de receita da operação. A legislação também prevê dotações orçamentárias, instrumentos tributários e urbanísticos, investimentos privados e outros mecanismos de financiamento.


Essa mudança ajuda a enfrentar uma limitação histórica do setor. Quando a operação depende quase exclusivamente da tarifa, a queda de passageiros compromete diretamente o equilíbrio econômico e a capacidade de manter o nível de serviço.


O Marco Legal também amplia o peso dos dados na gestão e na fiscalização. A implementação de modelos de remuneração, indicadores de qualidade e novas formas de custeio exige informações confiáveis sobre oferta, demanda, frota, viagens e execução operacional.


Luiza Gomes aproximou esse debate da realidade das empresas. Para que novas regras de remuneração e fiscalização funcionem, operadores e gestores precisarão trabalhar com informações mais consistentes sobre viagens, quilometragem, demanda, cumprimento do serviço e qualidade, o que a plataforma da Cittati apoia de maneira eficiente.


A implementação do Marco Legal, portanto, não será somente uma tarefa jurídica. Ela exigirá adaptação de processos, revisão de contratos, qualificação das equipes e maior maturidade no uso das informações.


A LAT.BUS 2026 acontece justamente no momento em que o setor começa a compreender os impactos da nova legislação. A programação inclui um painel dedicado ao Marco Legal como fundamento de uma nova política nacional de financiamento, com destaque para a separação entre tarifa pública e remuneração do serviço.


O fim da escala 6x1 pode alterar a organização das operações


A possível mudança da escala 6x1 não é apenas um tema trabalhista para o transporte de passageiros. Ela pode interferir diretamente na construção das escalas, na disponibilidade de profissionais, nos custos e na capacidade de manter o serviço em funcionamento.


Alexandre Pelegi relacionou a jornada dos trabalhadores ao próprio funcionamento das cidades. O transporte precisa operar durante períodos extensos, incluindo madrugadas, fins de semana, feriados e horários de pico. Por isso, uma mudança na organização do trabalho pode gerar efeitos que ultrapassam a relação individual entre empresa e colaborador.


Em agosto de 2026, a proposta continua em discussão no Senado. A PEC 221/2019 prevê o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial. A mudança ainda não deve ser tratada como regra vigente.


Uma eventual redução da jornada pode exigir novas contratações, redistribuição de turnos, revisão das folgas, mudanças na utilização de horas extras e adequações nos contratos.


Luiza Gomes trouxe o tema para o campo da preparação operacional. Empresas que conhecem suas jornadas, horários críticos, níveis de ausência e disponibilidade de profissionais conseguem projetar cenários com mais segurança.


Os impactos também variam conforme o segmento. Uma operação urbana de grande porte possui necessidades diferentes das encontradas no fretamento contínuo, no transporte rodoviário, no escolar ou em operações eventuais.


Por isso, não existe uma resposta única para todo o mercado. Cada empresa precisará analisar sua programação, seus acordos coletivos, o tamanho da equipe e o perfil das viagens.


Mesmo antes da conclusão do debate legislativo, as empresas podem trabalhar com simulações:


  • Quantas horas de trabalho são necessárias para cumprir a programação?
  • Em quais períodos existe maior concentração de jornadas?
  • Onde há dependência excessiva de horas extras?
  • Quais funções são mais difíceis de substituir?
  • Qual seria o impacto de diferentes modelos de escala?


Responder a essas questões depende de informações confiáveis sobre jornadas, presença, escalas, viagens e disponibilidade de profissionais.

A discussão sobre a escala 6x1 também reforça a importância da digitalização. Empresas que dependem de controles fragmentados ou apontamentos manuais terão mais dificuldade para construir cenários e adaptar a operação.


A programação da LAT.BUS 2026 inclui um debate específico sobre os impactos do fim da escala 6x1 no fretamento, além de discussões sobre escassez de motoristas e inteligência artificial aplicada à operação.


Tecnologia na mobilidade urbana precisa chegar à decisão


A tecnologia foi um dos eixos mais presentes na conversa do CittaCast. O debate mostrou que a transformação digital vai além da instalação de equipamentos, à contratação de um software ou à substituição de formulários em papel.


O valor aparece quando planejamento, execução, monitoramento e análise passam a compartilhar informações consistentes.


Luiza Gomes destacou que os clientes reconhecem cada vez mais a importância de ter dados disponíveis para conduzir a operação. Em algumas empresas, essa evolução já levou à decisão de implementar um setor de dados, mostrando que a informação passou a ocupar uma posição mais próxima da estratégia.


Essa mudança não acontece apenas na estrutura organizacional. Ela altera a forma como gestores acompanham o serviço, avaliam resultados e tomam decisões.


Uma empresa pode acumular grandes volumes de dados e continuar tomando decisões de forma reativa. Isso acontece quando as informações estão dispersas, chegam tarde demais ou não estão relacionadas aos processos da operação.


A gestão orientada por dados começa com perguntas claras:


  • O que precisa ser medido?
  • Qual indicador representa a qualidade do serviço?
  • Em que momento uma ocorrência exige intervenção?
  • Como transformar um alerta em uma ação operacional?
  • Quais informações precisam chegar ao CCO, ao planejamento e à diretoria?


Luiza também chamou atenção para a diferença entre simplesmente receber informações e estruturar uma gestão realmente orientada por dados.

Ao sintetizar a importância dessa mudança, ela destacou a condição de “quem tem dados na mão” para identificar problemas, organizar prioridades e tomar decisões com mais clareza.


A gestão orientada por dados exige processos definidos, responsabilidades claras, equipes preparadas para interpretar as informações e parceiros de negócio, como a Cittati, que aliem tecnologia com inteligência para trazer informações de qualidade, que efetivamente apoiam a operação na otimização da sua atuação e na eficiência da empresa.


O que esperar da LAT.BUS 2026?


A LAT.BUS 2026 deve apresentar veículos, componentes, plataformas e serviços, mas sua relevância vai além da exposição.

O evento acontece em um momento de mudanças regulatórias, pressão por novos modelos de financiamento, evolução tecnológica e necessidade de recuperar passageiros.


Alexandre Pelegi indicou ao longo da conversa que a feira deve refletir um setor diante de mudanças econômicas, sociais e regulatórias simultâneas. Mais do que acompanhar lançamentos, será necessário compreender os impactos dessas transformações sobre a operação.


Luiza Gomes reforçou a importância de avaliar as soluções a partir da realidade de cada empresa. Uma tecnologia pode ser relevante, mas sua adoção precisa considerar o nível de maturidade da operação, os processos existentes e os problemas que precisam ser resolvidos.


Essa combinação entre visão de mercado e experiência dos clientes é um dos principais diferenciais do episódio. O CittaCast mostra como as tendências chegam às decisões de quem planeja, opera e administra o transporte.


Para operadores de transporte urbano


Operadores poderão comparar soluções de planejamento, monitoramento, bilhetagem, telemetria, gestão de pessoas e integração de sistemas.

Mais importante do que acumular funcionalidades será entender como cada tecnologia se conecta aos processos existentes.

A avaliação deve considerar capacidade de integração, confiabilidade dos dados, facilidade de implantação e impacto na rotina do CCO, do planejamento, da manutenção e da gestão.


Para órgãos gestores e administrações públicas


O Marco Legal, a transparência, o financiamento, a qualidade e a governança de dados devem receber atenção especial.

Órgãos gestores precisarão estruturar indicadores, acompanhar a execução do serviço, definir critérios contratuais e ampliar a capacidade de fiscalização.


A tecnologia pode apoiar esse processo ao centralizar informações de diferentes operadores e permitir uma visão integrada da rede.


Para empresas de fretamento e contratantes


No fretamento, a agenda envolve jornada de trabalho, escassez de motoristas, conectividade, eficiência e experiência dos usuários.

Empresas contratantes também buscam maior visibilidade sobre viagens, pontualidade, passageiros, qualidade do serviço e cumprimento dos contratos.

Soluções capazes de gerar comprovação, rastreabilidade e indicadores ganham relevância em um cenário de maior pressão por eficiência e governança.


Para fabricantes e fornecedores


Fabricantes e fornecedores precisarão demonstrar como veículos, componentes, softwares e serviços se conectam a resultados operacionais.

O mercado tende a exigir propostas que considerem integração, manutenção, custo total, disponibilidade e impacto sobre a qualidade do serviço.

O produto isolado perde espaço para soluções capazes de funcionar dentro de um ecossistema mais amplo.


A participação da Cittati na LAT.BUS 2026


A Cittati estará presente na LAT.BUS 2026 apresentando como tecnologia, dados e integração podem apoiar diferentes perfis de operação.

A participação da empresa também inclui o painel “Tecnologias (ITS) que melhoram a mobilidade urbana”, no dia 13 de agosto, às 15h30. Dionaldo Passos, CEO da Cittati, participa do debate dedicado a sistemas de planejamento, gestão e monitoramento, conectividade, inteligência artificial, big data e internet das coisas.

Quem visitar a feira poderá encontrar a Cittati no estande A36, no espaço compartilhado com outras empresas do Grupo Modaxo.



A presença no evento reforça a proximidade da Cittati com discussões que já fazem parte da realidade dos operadores, órgãos gestores, empresas de fretamento e contratantes de transporte corporativo.

Uma conversa que começa antes da feira


O segundo episódio do CittaCast mostra que os desafios do transporte por ônibus não chegam separadamente.

Alexandre Pelegi apresentou uma leitura ampla sobre as mudanças que afetam demanda, financiamento, regulação e funcionamento das cidades. Luiza Gomes mostrou como essas transformações já aparecem entre clientes da Cittati, especialmente na busca por dados, controle, integração e decisões mais qualificadas.


A redução de passageiros pressiona o modelo de financiamento. A busca por novas fontes de recursos exige mais transparência. O Marco Legal aumenta a importância dos contratos e dos indicadores. Mudanças na jornada podem alterar escalas e custos. A tecnologia oferece instrumentos para responder a esses desafios, mas precisa estar integrada à operação.


Ao reunir essas duas perspectivas, o episódio oferece um ponto de partida para quem pretende acompanhar a LAT.BUS 2026 com mais contexto e compreender como os grandes debates do mercado chegam ao cotidiano das empresas.

O episódio completo do CittaCast já está disponível nos canais da Cittati.


Assista ao CittaCast #2 e acompanhe a participação da Cittati na LAT.BUS 2026.

Veja o que a Cittati apresentará na LAT.BUS 2026

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3 de novembro de 2026
O transporte individual motorizado já representa praticamente o dobro da participação do transporte coletivo nas viagens urbanas das cidades brasileiras analisadas pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). Segundo o Relatório SIMOB 2025 , divulgado em outubro de 2026, automóveis e motocicletas responderam por 39,9% dos deslocamentos nos 533 municípios contemplados pelo levantamento. O transporte coletivo, incluindo ônibus e sistemas sobre trilhos, ficou com 20,7%. Os números confirmam uma transformação que começou antes da pandemia e ganhou novos contornos nos últimos anos. Enquanto o transporte coletivo enfrenta dificuldades para recuperar a dem anda, carros e motocicletas ampliam sua participação na mobilidade das cidades. A conjuntura também passou a incorporar novas condições ec onômicas e regulatórias, incluindo programas federais de financiamento para veículos utilizados por motoristas de aplicativo, taxistas e profissionais que trabalham com motocicletas. Embora essas iniciativas sejam recentes e não expliquem, isoladamente, as mudanças observadas na última década, elas acrescentam uma dimensão importante à análise das alternativas de deslocamento disponíveis no país. Mais do que uma mudança na quantidade de veículos, esse cenário revela uma alteração na distribuição das viagens e amplia os desafios de planejamento, operação e qualidade do transporte público. O passageiro voltou, mas a demanda ainda está distante do período pré-pandemia O transporte coletivo urbano por ônibus apresentou recuperação parcial após a forte redução de passageiros durante a pandemia de Covid-19. Entretanto, os indicadores mais recentes mostram que essa recuperação não foi suficiente para restabelecer os patamares anteriores. De acordo com o Anuário NTU 2025–2026 , divulgado pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), o número de viagens de passageiros por ônibus caiu 3,7% em 2025 na comparação com 2024. Considerando 2019 como referência, a demanda de 2025 correspondeu a apenas 77,5% do volume transportado antes da pandemia. Isso significa que, mesmo após a retomada das atividades presenciais, o setor continuou operando com uma demanda substancialmente inferior à registrada seis anos antes. A perda de participação começou antes da pandemia A perda de participação, porém, não começou em 2020. A série histórica do SIMOB mostra que o transporte coletivo respondia por 28,7% das viagens urbanas em 2014. Em 2019, essa participação já havia diminuído para 27,8%. Depois da pandemia, chegou a 21,6% em 2023, 21,3% em 2024 e 20,7% em 2025. O comportamento mais recente também merece atenção. Segundo a ANTP, enquanto o número total de viagens urbanas cresceu 1,2% em 2025, o transporte coletivo apresentou redução de 1,5%. No mesmo período, as viagens por transporte individual motorizado cresceram 3,6%. Assim, o aumento dos deslocamentos urbanos não tem se traduzido em crescimento proporcional da demanda pelo transporte coletivo. Esses indicadores possuem metodologias e abrangências distintas. A NTU acompanha o desempenho operacional dos sistemas de ônibus, enquanto o SIMOB estima a distribuição das viagens entre modos nos municípios abrangidos pelo estudo. Ainda assim, ambos apontam para a persistência de dificuldades na recuperação do transporte coletivo. Enquanto isso, carros e motocicletas ampliam sua participação O crescimento da motorização individual é outra parte importante dessa transformação. As estatísticas da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) disponibilizam séries históricas da frota registrada no país, enquanto os levantamentos da ANTP permitem observar como os diferentes modos participam efetivamente dos deslocamentos urbanos. Segundo a ANTP, automóveis e motocicletas representavam 27,7% das viagens dos municípios analisados em 2014. Em 2025, essa participação chegou a 39,9%, um aumento de 12,2 pontos percentuais. O avanço fica ainda mais evidente quando comparado à trajetória do transporte coletivo, que perdeu oito pontos percentuais de participação no mesmo intervalo. Frota registrada e viagens realizadas exigem leituras diferentes É importante distinguir o crescimento da frota registrada do crescimento efetivo dos deslocamentos. Um veículo incorporado ao cadastro nacional não necessariamente circula diariamente, assim como o aumento da quantidade de automóveis não demonstra, isoladamente, que seus proprietários deixaram de utilizar ônibus. Entretanto, a evolução da participação modal mostra um ambiente em que os veículos individuais passaram a responder por uma parcela crescente das viagens realizadas nas cidades estudadas . Essa transformação se manifesta de maneira diferente entre as regiões brasileiras, pois a infraestrutura, a oferta de transporte coletivo, a renda da população, a extensão dos deslocamentos e as alternativas existentes influenciam a organização da mobilidade de cada município. O crescimento das motocicletas merece atenção especial Entre os veículos individuais, as motocicletas têm apresentado um movimento expressivo de expansão . Segundo dados divulgados pela NTU em agosto de 2026, o Brasil registrou a comercialização de aproximadamente 2,2 milhões de motocicletas em 2025, crescimento de 17,1% em relação ao ano anterior. O volume superou, pela primeira vez, o licenciamento de automóveis de passeio, conforme o levantamento apresentado pela entidade. O comportamento das motocicletas também aparece nos dados de deslocamento da Região Metropolitana de São Paulo. A Pesquisa Origem e Destino 2023 do Metrô de São Paulo, que comparou as viagens realizadas em 2017 e 2023, registrou crescimento de aproximadamente 16% nos deslocamentos por motocicleta, enquanto as viagens por automóvel permaneceram praticamente estáveis.  A expansão desse modo ocorre em um contexto no qual motocicletas são utilizadas tanto para deslocamentos pessoais quanto para atividades profissionais, incluindo entregas e serviços intermediados por plataformas digitais. Outro aspecto relevante é a segurança viária. Dados da Polícia Rodoviária Federal mostram que os sinistros envolvendo motocicletas nas rodovias federais passaram de 27.755 em 2023 para 31.571 em 2024, crescimento de 13,7%. Embora esse levantamento se refira especificamente às rodovias federais e não represente toda a circulação urbana, ele evidencia a importância de acompanhar os indicadores de segurança associados ao uso desse tipo de veículo. O crescimento das motocicletas, portanto, precisa ser analisado considerando seus diferentes usos e suas implicações para o planejamento da mobilidade, sem atribuir automaticamente a expansão desse mercado à perda de passageiros do transporte público. Políticas públicas e financiamento também entram na conjuntura da mobilidade Além da evolução da demanda e do crescimento do transporte individual, medidas recentes do governo federal passaram a oferecer condições específicas de financiamento para profissionais que utilizam veículos em suas atividades . Em 2026, o programa Move Brasil estabeleceu linhas de crédito para taxistas, motoristas de aplicativo e profissionais elegíveis que trabalham com motocicletas e entregas. As condições contemplam determinados automóveis novos de até R$ 200 mil, com prazos de financiamento de até 84 meses, e veículos de duas rodas elegíveis, com prazos de até 48 meses. Os programas são direcionados a categorias profissionais específicas, dependem do cumprimento de requisitos e da análise de crédito e não constituem incentivo indiscriminado à aquisição de veículos pela população. O Marco Legal também atualiza as regras do transporte coletivo No transporte coletivo, uma mudança regulatória igualmente relevante ocorreu com a sanção da Lei nº 15.432, de 13 de junho de 2026, que instituiu o Marco Legal do Transporte Público Coletivo Urbano. Com entrada em vigor prevista para junho de 2027, a legislação estabelece diretrizes para financiamento, contratação, gestão, transparência e qualidade do serviço, ampliando a importância dos indicadores operacionais na relação entre gestores e operadores . A Cittati detalha os impactos dessa legislação no artigo “Marco Legal do Transporte Público: por que dados operacionais ganham peso nos contratos” . A existência dessas políticas e mudanças normativas é parte da conjuntura de 2026, mas seus efeitos sobre a frota, a demanda e a participação modal ainda dependem de acompanhamento. Como foram adotadas recentemente, não explicam a perda de participação do transporte coletivo registrada ao longo da década anterior. A disputa pela mobilidade vai além do preço da tarifa O crescimento do transporte individual não significa que todas as pessoas tenham deixado de utilizar o transporte coletivo pelos mesmos motivos. A escolha de como se deslocar envolve um conjunto de condições que variam conforme a cidade, a renda, a disponibilidade de alternativas e as características de cada viagem. O preço da tarifa é um componente importante, mas não é o único . A frequência influencia o tempo de espera, enquanto a pontualidade e a regularidade afetam a capacidade de prever o horário de chegada. Já a cobertura das linhas e a integração entre serviços interferem nas possibilidades de acesso aos destinos. Essas dimensões também se relacionam com o tempo total necessário para realizar um deslocamento, que não se limita ao período dentro do veículo. O que os deslocamentos na Grande São Paulo revelam A Pesquisa Origem e Destino 2023 da Região Metropolitana de São Paulo ajuda a compreender como as mudanças nos padrões de deslocamento se refletem na distribuição das viagens . Entre 2017 e 2023, o transporte coletivo passou de 54,1% para 48,8% das viagens motorizadas na região. No mesmo intervalo, o transporte individual passou de 45,9% para 51,2%. O total de viagens diárias também diminuiu, de aproximadamente 42 milhões para 35,6 milhões, uma redução de 15,1%. Esses dados mostram que a transformação não se resume a uma transferência de deslocamentos entre veículos. O próprio volume e a organização das viagens urbanas sofreram alterações. Mudanças nas atividades presenciais e nas rotinas de trabalho também precisam ser consideradas, mas sua contribuição específica para cada modalidade depende das características locais e de estudos capazes de identificar essas relações. Mais veículos individuais, novos desafios para a operação dos ônibus A ampliação da participação do transporte individual também coloca novos desafios para o funcionamento dos sistemas coletivos. Nas vias em que ônibus, automóveis e motocicletas compartilham o mesmo espaço, as condições de circulação influenciam diretamente o desempenho operacional. Congestionamentos e interferências no tráfego podem aumentar o tempo de percurso, dificultar o cumprimento dos horários e produzir irregularidades nos intervalos entre veículos. Para os operadores, variações no tempo de viagem exigem atenção ao dimensionamento da frota, à programação das partidas e à disponibilidade de veículos para atender à demanda . Quando uma linha apresenta tempos de percurso muito diferentes ao longo do dia, a programação precisa considerar essas oscilações para manter uma oferta compatível com as condições reais de circulação. Caso contrário, podem ocorrer atrasos, concentração de veículos em determinados trechos e intervalos superiores aos planejados. A relação entre congestionamento e desempenho dos ônibus depende das condições locais. Sistemas com corredores exclusivos, faixas preferenciais ou diferentes configurações viárias podem apresentar comportamentos distintos. Queda de demanda e sustentabilidade econômica dos sistemas Há também consequências econômicas associadas à queda da demanda. Quando a receita tarifária representa parte relevante do financiamento de um sistema, a redução do número de passageiros pagantes pode pressionar sua sustentabilidade, especialmente quando os custos necessários para manter a oferta não diminuem na mesma proporção. O Anuário NTU 2025–2026 mostra que a participação dos passageiros pagantes, medida em equivalentes tarifários, passou de 72% da demanda transportada em 2021 para 55,4% em 2025 . Esse indicador incorpora os efeitos de descontos, gratuidades e equivalências tarifárias, não devendo ser confundido com a proporção simples de pessoas que pagam alguma tarifa. Ainda assim, revela alterações relevantes na estrutura de arrecadação do setor. Nesse cenário, avaliar a operação exige observar simultaneamente demanda, custos, oferta e padrões de deslocamento, de maneira a compreender tanto o desempenho do serviço quanto as condições necessárias para sua manutenção. Dados passam a ser parte da disputa pela mobilidade Diante das mudanças no comportamento da mobilidade urbana, operadores e gestores públicos precisam compreender não apenas quantas pessoas utilizam o transporte coletivo, mas também como o serviço está sendo executado. A análise da demanda, isoladamente, não explica todos os fatores associados à qualidade operacional. É necessário observar o desempenho das linhas, os horários de maior utilização, o cumprimento das viagens, os intervalos entre ônibus e as diferenças entre o planejamento e a operação realizada. Essas informações permitem identificar situações que exigem investigação e apoiar decisões sobre programação, dimensionamento e ajustes operacionais . Uma linha com demanda concentrada em determinados períodos, por exemplo, exige uma avaliação diferente daquela que apresenta distribuição relativamente uniforme de passageiros ao longo do dia. Da mesma forma, atrasos recorrentes podem indicar a necessidade de revisar os tempos programados, investigar condições de circulação ou avaliar a distribuição da oferta. Informação ao passageiro e inteligência operacional O monitoramento contínuo desses indicadores permite que as decisões sejam fundamentadas em informações operacionais, e não apenas em registros pontuais ou percepções sobre o funcionamento do serviço. A disponibilidade de informação ao passageiro também integra essa discussão, pois dados atualizados sobre a operação podem apoiar sistemas de previsão de chegada, comunicação de horários e acompanhamento das viagens. Isso não significa que a tecnologia, isoladamente, seja capaz de recuperar a demanda perdida. Aspectos como infraestrutura, financiamento, frequência, integração e qualidade da oferta continuam sendo componentes relevantes das condições de funcionamento e atratividade do transporte coletivo. O que os dados indicam para o futuro da mobilidade urbana? A evolução recente da mobilidade brasileira revela um desafio que vai além da recuperação do número de passageiros perdido durante a pandemia. Os dados da ANTP mostram que o transporte individual motorizado ampliou sua participação nas viagens urbanas ao longo da última década, enquanto o transporte coletivo perdeu espaço . A NTU, por sua vez, identifica que a demanda por ônibus permanece abaixo do período pré-pandemia e voltou a apresentar redução em 2025. Ao mesmo tempo, a expansão do mercado de motocicletas e a introdução de novas condições de financiamento para determinados profissionais mostram que o ambiente de mobilidade continua incorporando mudanças econômicas e regulatórias. Esses movimentos não acontecem de maneira uniforme entre as cidades, tampouco podem ser explicados por uma única variável. A escolha do transporte envolve condições econômicas, características dos deslocamentos, disponibilidade de alternativas e atributos associados ao serviço. Para operadores e gestores públicos, compreender essa conjuntura exige acompanhar tanto as transformações do mercado quanto os indicadores de desempenho dos sistemas coletivos. A disputa pela mobilidade urbana não está relacionada apenas à quantidade de carros, motocicletas ou ônibus disponíveis, mas também à capacidade de oferecer viagens com tempo, regularidade, confiabilidade e informação compatíveis com as necessidades da população. Em um cenário de mudanças nos padrões de deslocamento, conhecer a demanda e transformar dados operacionais em decisões passa a ser uma parte importante da gestão do transporte coletivo.
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