O Brasil está ficando sem motoristas de ônibus?
Encontrar motoristas para manter a operação já é um desafio para parte relevante das empresas de transporte coletivo urbano no Brasil. Na Pesquisa CNT Perfil Empresarial 2023, pouco mais da metade das empresas entrevistadas informou ter vagas desocupadas para motoristas.
O cenário mostra que a disponibilidade desses profissionais se tornou uma questão importante para o setor. Formação, experiência, atratividade da profissão, condições de trabalho e retenção ajudam a explicar por que contratar e manter motoristas está mais difícil para muitas empresas.
A falta de motoristas já aparece nos dados do setor
A Pesquisa CNT Perfil Empresarial 2023 — Transporte Rodoviário Urbano de Passageiros ouviu 174 empresas e encontrou um sinal claro de pressão sobre a mão de obra: 50,6% disseram ter vagas de motoristas de ônibus desocupadas no momento da pesquisa, enquanto 49,4% informaram estar com o quadro preenchido.
O levantamento também identificou os motoristas entre as atividades com carência de profissionais, apontada por 53,4% das empresas pesquisadas. Entre os obstáculos relacionados à contratação aparecem ainda a falta de qualificação dos candidatos, citada por 41,4%, a baixa experiência profissional, por 40,8%, e a baixa atratividade da profissão, por 33,3%.
Os dados mostram uma dificuldade relevante de contratação entre as empresas pesquisadas. A coleta foi realizada em 2023 e, desde então, o tema continua presente nas discussões do setor. Em 2026, a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) voltou a destacar a disponibilidade de motoristas como um dos desafios enfrentados pelas operadoras, especialmente em debates sobre jornada e capacidade de manter a oferta do serviço.
Por que está mais difícil contratar e manter motoristas?
A pesquisa da CNT mostra que o desafio não está concentrado em um único fator. Qualificação, experiência e atratividade aparecem simultaneamente entre os principais obstáculos relatados pelas empresas, indicando que o problema começa antes da contratação e continua durante a permanência do profissional na atividade.
Formação cria uma barreira de entrada
Dirigir profissionalmente veículos de transporte de passageiros exige habilitação adequada e capacitação específica, o que torna o ingresso na atividade mais complexo do que em ocupações que permitem entrada imediata.
Iniciativas como o Programa Mais Motoristas, do SEST SENAT, foram criadas justamente para ampliar o número de profissionais qualificados, oferecendo mudança de categoria da CNH e formação voltada ao exercício profissional.
A formação, porém, é apenas uma das etapas. Depois de atrair profissionais para a atividade, as empresas ainda precisam criar condições para mantê-los nela.
Condições de trabalho também influenciam a retenção
Uma revisão acadêmica publicada em 2025 sobre as condições de trabalho e saúde de motoristas de ônibus urbano no Brasil analisou estudos realizados entre 2013 e 2023 e identificou fatores como estresse, dores musculoesqueléticas, horários desregulados e pressões organizacionais. O trabalho destaca impactos físicos e mentais associados ao cotidiano da profissão.
Uma pesquisa conduzida pela Fundacentro e pela Universidade Federal de Minas Gerais também ajuda a dimensionar esse desgaste. Ao analisar motoristas do transporte coletivo urbano e metropolitano de Belo Horizonte, o estudo encontrou relatos de fadiga, dores musculares, problemas posturais, estresse e sobrecarga física e emocional, além de questões relacionadas à organização dos horários, pausas e tempos de viagem.
Esse conjunto de fatores amplia a discussão sobre disponibilidade de motoristas. Atrair profissionais é parte do desafio; oferecer condições para que permaneçam na atividade é outra.
Ter pessoas habilitadas não significa ter motoristas disponíveis
O número de pessoas com CNH compatível, isoladamente, não revela quantos profissionais estão efetivamente disponíveis para trabalhar no transporte coletivo.
Uma habilitação permite dirigir determinada categoria de veículo, mas não informa se aquela pessoa atua como motorista profissional, pretende exercer a atividade, possui experiência no transporte de passageiros ou está disponível na região onde existe uma vaga.
O desafio está no encontro entre oferta e necessidade
Na prática, a disponibilidade de motoristas depende da combinação entre qualificação, experiência, interesse pela atividade, localização e características das oportunidades oferecidas.
É justamente essa combinação que ajuda a explicar por que empresas podem enfrentar dificuldade de contratação mesmo em regiões onde existe um contingente relevante de pessoas habilitadas.
Quando faltam profissionais, a pressão chega à operação
Uma operação de transporte coletivo depende de escalas, coberturas, reposições e capacidade de responder diariamente a ausências e imprevistos. Quando contratar ou substituir motoristas se torna mais difícil, essa margem operacional diminui.
Menos disponibilidade deixa o planejamento mais sensível
Um quadro mais restrito pode pressionar a montagem das escalas, aumentar a utilização dos profissionais disponíveis e reduzir a flexibilidade para absorver afastamentos ou alterações de programação.
O impacto varia conforme a estrutura de cada empresa, mas o efeito estratégico é claro: disponibilidade de motoristas deixa de ser apenas uma questão de recrutamento e passa a influenciar diretamente a capacidade de sustentar a operação.
Por isso, o desafio não está somente em abrir novas vagas. Está em formar, atrair e manter profissionais suficientes para atender uma operação que precisa funcionar todos os dias.
Então, o Brasil está ficando sem motoristas de ônibus?
O transporte coletivo brasileiro enfrenta uma dificuldade relevante para contratar e manter motoristas, ainda que não exista hoje uma medição nacional capaz de quantificar um déficit total desses profissionais.
Os dados disponíveis mostram empresas com vagas abertas, carência de profissionais e dificuldades relacionadas à qualificação, experiência e atratividade da carreira. Estudos sobre as condições de trabalho acrescentam outra dimensão ao cenário ao mostrar que o desgaste físico e mental também faz parte da realidade da atividade.
O problema, portanto, é mais amplo do que simplesmente contar quantos motoristas existem no Brasil. Para o setor, importa saber quantos profissionais estão qualificados, disponíveis e dispostos a permanecer na atividade nas condições atuais.
A capacidade de responder a essa combinação será cada vez mais relevante para empresas que precisam planejar suas equipes e preservar a continuidade e a qualidade da operação.
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